um reflexo no espelho
diários de insônia e tentativas de respiro
eu não consigo tampar o espelho. eu sei que, no momento em que conseguir, vou poder me deitar do lado certo da cama, o que fica de frente ao espelho, agora sem perigo de reflexo. também sei que, quando isso acontecer, vou poder dormir. eu sei que só isso me ajudará a dormir. penso em pedir ajuda: talvez um peso mágico da finura ideal do espelho, para que eu possa colocar sobre a toalha. ou, quem sabe um lençol, que é mais fino, e pode suportar seu próprio peso. mas ninguém poderia saber que esse é o motivo da minha insônia. é só neurose, chatice; loucura abobada. me faria parecer rídicula, ou acenderia um sinal de alerta. no primeiro caso, meu sentimento seria desvalorizado, motivação risória. que bobice, menina. vá dormir. é só não pensar sobre isso. e no segundo caso? ah, até pior. eu seria uma dor de cabeça a mais, um fardo. tem que ver isso aí, comprar remédio. se esforçar para pagar psiquiatra e corrigir. tempo, dinheiro, paciência — tudo gastos que não devem ser tomados, o momento não é bom. o momento nunca é bom, na verdade. desisti de esperar momentos. ainda assim, não consigo dormir. a cama bate de frente ao espelho, e preciso cobri-lo. não consigo, é muito grande para só ignorar ou jogar algo por cima. preciso de um peso que segure a toalha. e é muito pesado para virar de costas, está fixo à parede. então não vou dormir, já aceitei o fato. vou virar a noite, eu e meu reflexo. porque acordada, de luz acesa, sem os perigos do mundo dos sonhos, posso lidar com meu reflexo. mas estou com medo de dormir sem perceber e me ver de noite. pálida, espectral e esbranquiçada. um vislumbre do que um dia já fui e um dia quis ser. sem vida, com olhos incolores. um retrato de figura fantasmagórica. sozinha, vulnerável. só eu e eu mesma. eu e esse rosto estranho, longo, assustador. comprido. então serei eu e meu reflexo, a noite toda, só nós dois. cruzes. me deito do lado contrário, choro um chorinho e espero até que o sono, inevitável para os vivos, venha em algum momento. me acomodo, devaneio, sinto torcicolo. em algum momento fico um tantinho menos tensa, tenho certeza. aperto os dedos, esqueço um pouco do espelho e caio no

